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16 de fevereiro de 2011

Um poeta

A Francisco Carmelo

“Depois de uma breve apresentação deste autor, feita pelo Coordenador da BE; seguiu-se a análise do livro de poemas Romance, levada a cabo por José M.Veiga, numa perspectiva sequencial dos elementos mais marcantes da obra. Tomando a palavra, Francisco Carmelo, prendeu a assistência falando de poesia, do acto criador, dos insights do poeta, da solidão, da vida e da morte, da celebração do Amor como Verdade, da justa medida das palavras e da harmonia do texto poético, entre tantas outras temáticas da história à arte, passando pela literatura. Ainda houve tempo para uma peça musical, da autoria de J. Veiga, inspirada em Romance.”

O excerto que acaba de ler é parte de um post publicado neste blogue, em Abril de 2008, aquando da apresentação, na biblioteca da ESAF, do livro de poemas – Romance - de Francisco Carmelo.

Romance fica para sempre, como para sempre ficará, na nossa memória, a figura deste homem, professor e poeta, nosso amigo, que agora partiu na sua insaciável busca do infinito.

A família, a escola, a comunidade de todos aqueles que com ele privaram perdem a presença de um amigo, com o seu sorriso largo a par da sua circunspecção, com o seu conhecimento do mundo da poesia e da literatura, a par da sua veia poética. Tantas foram as vezes que lhe ouvimos poemas ditos em diferentes espaços, uns feitos quase de rajada, quais insights, outros resultado de tecedura mais lenta, burilada. Ficará a memória, não apenas da sua forma de ser e estar no mundo, mas também daqueles momentos (e como foram brilhantes, tantas vezes) quando falava da poesia, da literatura, da beleza das palavras, das suas influências: Herberto Hélder, Eugénio de Andrade, Ruy Belo, Maria Zambrano, … Tantas.

Homem de leituras (imensas), também de vivências (intensas, deixava intuir), colega da lide docente, a quem os alunos na escola, na rua, noutros lugares, nunca deixavam de acarinhar: “olá Prof. Carmelo! ”. Colega presente na vida cultural da Biblioteca que, sei-o bem, apreciava, como apreciava os livros…sim os amáveis livros, os livros de que se fazia acompanhar, para os quais olhávamos curiosos, querendo descortinar as leituras de que se alimentava.

Nos últimos tempos, chegava com um poema, deixava-o e partia, para no dia seguinte voltar com outro…

O último que nos deixou sobre a mesa, partilhámo-lo aqui:

A beleza da superfície das ondas

Imitar as gaivotas

Uma álea entre os seres

Bosque de luz

Conflui no silêncio

Desperta para a voz

Enrola-se num corpo

Vibra na paixão

Abre as letras

Segreda o universo

Une-se às igrejas

Aprofunda o poema

Entrego-me à paisagem

Resulto em segredo

Prendo-me ao ser

Arrasto-me nas palavras

Fundo-me nas imagens

Prendo-me aos sonhos

Envolve a luz

Tece o fundo do amor

Cozinha para os filhos

Semeia a dádiva

Continua as palavras

Aprofunda os seres

Abre-se ao mar

Continua os rostos.

Francisco Carmelo, 14.2.11

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