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26 de março de 2010

Ainda e sempre a poesia...

Não resistimos a deixar aqui um texto que nos chegou a propósito da poesia. Ei-lo:

" O tempo tem elipses indecifráveis, mas o tempo se encarrega de as desvelar.
Foi num desses instantâneos em desvelo que conheci alguém elipticamente escondido que rasgava o caminho abruptamente murado.
Insistia, insistia em se mostrar e eu, eu não o via, até que um outro alguém me deu a ler algo que me fez entrar numa dessas elipses.
Percorri então uma linha sem fim dentro de uma outra circular cerrada, intransponível.
Deu-se a explosão!
Chama-se Guilherme de Faria
Aconteceu no dia da Poesia!"

texto de Messá
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Num grande mar de luz, a tarde cai,

Morre, desfeita em sombras… E a tristeza

Da agonia do sol que, ao longe, vai

Expirando, anoitece a natureza.


Hora triste e magoada como um ai!

Hora saudosa, eterna e portuguesa!

- Ave Maria… Ave Maria… - E cai,

Mais profunda e nostálgica, a tristeza.


Pairam nuvens de sonho sobre os montes;

E, mudo, ouvindo a música das fontes,

Eu vou com ela, extático, a sonhar!


E, no mar, vai o sol a esmorecer…

- Quem me dera, meu Deus, também morrer

Para, amanhã, no azul – ressuscitar!


Gulherme de Faria, in Poemas [1922], pp.15-17; Poetas e poéticas | guilherme de faria, Cosmorama, 2007