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16 de janeiro de 2008

Concertos de leitura

A leitora, Fragonard

“Onde se encontra o prazer do texto? Onde se encontra o seu poder de seduzir? Tive a resposta para essa questão acidentalmente, sem que a tivesse procurado. Ele disse-me que tinha lido um lindo poema de Fernando Pessoa, e citou a primeira frase. Fiquei feliz porque eu também amava aquele poema. Aí ele começou a lê-lo. Estremeci. O poema - aquele poema que eu amava — estava horrível na sua leitura. As palavras que ele lia eram as palavras certas. Mas alguma coisa estava errada! A música estava errada! Todo o texto tem dois elementos: as palavras, com o seu significado. E a música... Percebi, então, que todo o texto literário se assemelha à música. Uma sonata de Mozart, por exemplo. A sua “letra” está gravada no papel: as notas. Mas assim, escrita no papel, a sonata não existe como experiência estética. Está morta. É preciso que um intérprete dê vida às notas mortas. Martha Argerich, pianista suprema (a sua interpretação do concerto nº 3 de Rachmaninoff convenceu-me da superioridade das mulheres...) toca-as: os seus dedos deslizam leves, rápidos, vigorosos, vagarosos, suaves, nenhum deslize, nenhum tropeção: estamos possuídos pela beleza. A mesma partitura, as mesmas notas, nas mãos de um pianeiro: o toque é duro, sem leveza, tropeções, hesitações, esbarros, erros: é o horror, o desejo que o fim chegue logo.

Todo o texto literário é uma partitura musical. As palavras são as notas. Se aquele que lê é um artista, se ele domina a técnica, se ele surfa sobre as palavras, se ele está possuído pelo texto — a beleza acontece. E o texto apossa-se do corpo de quem ouve. Mas se aquele que lê não domina a técnica, se ele luta com as palavras, se ele não desliza sobre elas — a leitura não produz prazer: queremos que ela termine logo. Assim, quem ensina a ler, isto é, aquele que lê para que os seus alunos tenham prazer no texto, tem de ser um artista. Só deveria ler aquele que está possuído pelo texto que lê. Por isso eu acho que deveria ser estabelecida nas nossas escolas a prática de “concertos de leitura”. Se há concertos de música erudita, jazz e MPB — por que não concertos de leitura? Ouvindo, os alunos experimentarão os prazeres do ler. E acontecerá com a leitura o mesmo que acontece com a música: depois de ser picado pela sua beleza é impossível esquecer. A leitura é uma droga perigosa: vicia... Se os jovens não gostam de ler, a culpa não é deles. Foram forçados a aprender tantas coisas sobre os textos — gramática, usos da partícula “se”, dígrafos, encontros consonantais, análise sintáctica — que não houve tempo para serem iniciados na única coisa que importa: a beleza musical do texto literário: foi-lhes ensinada a anatomia morta do texto e não a sua erótica viva. Ler é fazer amor com as palavras. E essa transa literária inicia-se antes que as crianças saibam os nomes das letras. Sem saber ler elas já são sensíveis à beleza. A missão do professor? Mestre do Kamasutra da leitura…”
(Ruben Alves, Gaiolas ou Asas, A arte do voo ou a busca da alegria de aprender; Edições Asa, 2003, pp.20-21)

Rubem Alves é escritor, professor, psicanalista, pedagogo que olha a educação sob uma perspectiva que nos toca e comove.

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