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19 de dezembro de 2010

Gonçalo M. Tavares na Biblioteca da ESAF - crónica de uma tarde especial

 
De quando em vez, por entre o labor dos dias, sempre férteis, da biblioteca escolar, por entre o contínuo movimento de leitores/utilizadores (alunos, professores e demais elementos da comunidade escolar) em sucessivas interacções com a informação e o conhecimento, com os livros e outros recursos que abrem portas ao saber; de quando em vez, mobilizam-se forças, tempo extra, possibilidades criativas, leituras, entre outros afazeres orientados para a concepção de uma actividade, para a dinamização da biblioteca que queremos sempre melhor. Assim aconteceu, novamente, na biblioteca escolar da ESAF.
Todos os momentos são únicos, ou assim pretendemos que sejam, mas desta vez, voltámos a experienciar o frenesim típico de todos os inícios (sim também estamos num espaço novo, numa biblioteca aprazível e apetecível a todos aqueles que dobram a sua porta de entrada) – esperávamos um escritor. Queríamos um dia diferente, um momento que pudesse ser único, desde logo marcado pela hospitalidade, mas também pela criatividade. Recebíamos um grande escritor. Estava chegada a hora para contactar com ele, interpelá-lo e ouvi-lo. Estava chegada a hora de recebermos (neste espaço de livros e de encontros com o conhecimento, como de encontros entre seres humanos em formação) o escritor Gonçalo M. Tavares. Era para nós um privilégio, e aqueles que o receberam fizeram por merecê-lo.
O espaço: sala de leitura da biblioteca, onde já se encontravam muitos elementos da comunidade educativa aguardando o escritor. Aqui, num vasto lanço de parede, ao cimo das escadas que nos conduzem à mezzanine, multiplicavam-se palavras e mais palavras, a negro sobre fundo branco, umas doces outras agrestes, todas plenas de força, todas respigadas da bela e intensa combinação de palavras que é essa obra-prima recém-publicada – Uma Viagem à Índia. Lá estavam Bloom, o (anti) “herói” ficcional desta epopeia do Séc.XXI, e Índia, a miragem de um outro sentido para a vida, mais projectado que existente, pontificando entre os ecos das múltiplas estrofes dos dez cantos, para onde o olhar dos presentes, atraído, deixava que chegassem eflúvios de luz. Ao fundo, junto à mesa, onde conversaríamos com o escritor, um retrato emoldurado a corpo inteiro de Gonçalo M. Tavares (crayon e marcador negro), qual réplica perfeita da sua figura, tocada por um cândido sorriso e a postura serena e descontraída de um escritor quase sempre circunspecto (obra de uma aluna da escola – Ana Cláudia Cibrão). Sobre a mesa, duas rosas de intenso vermelho carmim, água, algum material de escrita e vários livros do autor.
A chegada: passava um pouco das 14h, quando o escritor, acompanhado pelo coordenador da biblioteca, o bibliotecário municipal e a representante do serviço de apoio às bibliotecas escolares, chegou e logo reteve o seu olhar sobre o desenho que representava a sua figura. Espanto e agradecimentos.
O encontro: mesmo antes de uma apresentação formal, iniciou-se a performance que, para ele e quem nos visitou, havíamos preparado. Uma sessão onde se encenou uma sequência de estrofes da obra Uma Viagem Á Índia, numa selecção inteligente e afectiva, preparada pela professora Marieta (da equipa da BE), genuína e brilhantemente interpretada por um grupo de alunos do Ensino Secundário. A abrir, a interpretação cantada a duas vozes (uma feminina – Diana Micaelo, outra masculina – José Veiga) da 1.ª estância do I Canto da obra. Não falaremos do rochedo sagrado… ecoou no espaço alto, de dois pisos, ao som de uma guitarra eléctrica; de seguida, vindas de diferentes pontos do espaço, do corredor da mezzanine aos degraus da escadaria, as vozes de alunos, em diferentes tons de representação, deram continuidade a uma pensada Viagem à Índia. A terminar a apresentação, um diálogo a duas vozes entre o narrador e Blomm, a personagem, interpretados pela dupla de professores (Marieta e Rui Campos), num texto forte e intenso da lavra da prof.ª Marieta.
Depois, foi a vez de ouvir Gonçalo M. Tavares, terminada a apresentação do autor, feita pelo professor coordenador da BE, com algumas notas biobibliográficas, referências ao estilo e à obra, nomeadamente àquela que a escola trabalhou para este encontro.
Foi um prazer conversar com Gonçalo M. Tavares, ouvi-lo falar do processo de escrita dos seus livros, do fascinante livro Uma Viagem à Índia e daquele que foge em busca de algo que lhe dê um sentido que afinal não alcança - Bloom, e dos senhores do Bairro, e da crueza de Jerusalém e da breve referência a Lenz Buchmann, de Aprender a Rezar na Era da Técnica, e do alfabeto e suas infinitas combinações, de onde por vezes emerge a beleza em todo o seu esplendor, e da concretez dos conceitos, do estilo límpido e sem "gongorismos", da simplicidade densa da palavra mais simples, quase nua. Em suma, uma conversa que se prolongou para além do tempo que ele tinha disponível, pois nem se deu conta do tempo que connosco passou, nessa tarde solar de segunda-feira, 13 de Dezembro.
Alguém nos disse, e nós subscrevemos, que naquele dia estivemos perante um escritor feliz, sorridente, que agradeceu com contentamento aos alunos que o receberam e aos presentes que com ele privaram, naquele intenso naco de tempo. Tempo de cultura, tempo que uma escola pode e deve oferecer aos seus, para além da rotina dos dias, das paredes das salas de aula, das planificações milimetricamente preparadas, dos momentos de alegria e de tristeza, que também os há...
Anoitecia já, quando terminaram as últimas dedicatórias e autógrafos que, pacientemente mas sem tédio, o escritor deixava nos seus livros que mãos estendidas lhe iam passando, para depois partirem felizes na expectativa das leituras que se adivinham.
[Para além dos citados, os nossos agradecimentos para os alunos que participaram na performance: Ana Catarina Sousa da Cruz, Anabela Ferreira R. Veloso, Ana Cláudia Costa Cibrão, Ana Rita Silva, Diana Raquel Micaelo Pereira, Diogo João Silva, Diogo Martins Barbosa, Inês Faria Mateus, Maria Helena F. Lourenço, Nuno André F. Teixeira, Rita Luís M. Silva]

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