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22 de janeiro de 2008

"Li, gostei e recomendo" - a palavra aos leitores

Marta Barbosa, aluna do 10º D da ESAF, faz aqui uma recensão "afectiva" de um livro que leu, gostou e recomenda.

"O Diário de Anne Frank"

É difícil descrever como este livro é grande. Grande como um importante depoimento da 2ª Guerra Mundial, grande como formidável relato de uma adolescência e de todo o turbilhão de sentimentos a que a ela é subjacente. Todas as dúvidas, medos, incertezas, frustrações, tristezas seguidas de momentos de euforia… Um turbilhão de sentimentos e de situações que são por vezes tão complicados de gerir, e que tantas vezes ficam no silêncio de cada um.

Neste livro temos estas duas posições, estas duas dimensões numa só, vividas por Anne Frank, uma criança de treze anos a quem a guerra e os erros humanos injustiçaram, ao privá-la de todo o Mundo que existe para além de um anexo isolado, justamente nesta idade, nesta altura, neste momento tão delicado da sua vida. Se, ainda em liberdade, as páginas escritas por Anne parecem transparecer infantilidade e até futilidade, logo esse “lapso” é desvanecido com o virar consecutivo de cada página; sendo que cada uma dessas páginas é fruto da necessidade íntima de exteriorizar o que dentro dela a preenchia.

Entre todo o ambiente de terror e ansiedade constante presentes na vida de qualquer refugiado, a incompreensão por parte de todos e sobretudo pela mãe que não compreende que é demasiado especial e inteligente para aceitar o existente, de forma incondicional, sem questionar, e, por fim, uma tão importante e doce paixão, há lugar para um enorme crescimento, não só físico mas sobretudo mental. Forçada a entender o Mundo mais cedo, esta criança desenvolve de forma admirável e reveladora de uma espantosa inteligência, um profundo poder de observação, introspecção e compreensão daquele ambiente que, sem ter tempo de perceber porquê a envolveu... durante dois anos. Dois anos em que um leitor atento e apaixonado pela história percebe o quão esta menina cresceu intelectualmente.

É comovente ver como alguém tão jovem, uma criança que, entre os treze e os quinze anos de idade se transforma numa grande mulher, tem a coragem e o arrebatador desejo de lutar pela vida que lhe querem roubar! Tomo este livro como um excelente exemplo de inteligência e sensibilidade absolutamente admiráveis, se pensarmos que a autora desta obra de arte, tinha… entre treze a quinze anos.

Se pensarmos bem, “as alegrias e as lágrimas são as mesmas em todos os seres humanos e em todas as partes do Mundo”, mas aqui está uma especial perspectiva.

Marta Barbosa 10ºD (na ESAF)

19 de janeiro de 2008

Chegou ao fim o processo de selecção -1ª Fase - dos alunos que irão representar a Escola na 2ª Fase do Concurso Nacional de Leitura (Fase Distrital). Depois das provas de selecção (que avaliaram os conhecimentos dos concorrentes sobre as obras seleccionadas para a 1ª Fase) realizadas na passada terça-feira, dia 15, o júri indicou os seis apurados: três da Categoria - Ensino Básico (7º,8º e 9º) mais três da Categoria Ensino Secundário. Em cada uma das categorias foram atribuídas duas menções honrosas (com o estatuto de suplente). Aos alunos seleccionados mas também a todos os que participaram nesta 1ª fase do concurso, os nossos parabéns.
Se queres saber se foste um dos seleccionados, é só consultar aqui!

16 de janeiro de 2008

O prazer da leitura


"Descontrai-te.
Recolhe-te.
Afasta de ti os outros pensamentos.
Deixa esfumar-se no indistinto, o mundo que te rodeia.
A porta é melhor fechá-la: ”Não, não quero ver televisão!”.
Levanta a voz, senão não te ouvem:

Estou a ler! Não quero que me incomodem”.

Italo Calvino, Se numa noite de Inverno um Viajante

Concertos de leitura

A leitora, Fragonard

“Onde se encontra o prazer do texto? Onde se encontra o seu poder de seduzir? Tive a resposta para essa questão acidentalmente, sem que a tivesse procurado. Ele disse-me que tinha lido um lindo poema de Fernando Pessoa, e citou a primeira frase. Fiquei feliz porque eu também amava aquele poema. Aí ele começou a lê-lo. Estremeci. O poema - aquele poema que eu amava — estava horrível na sua leitura. As palavras que ele lia eram as palavras certas. Mas alguma coisa estava errada! A música estava errada! Todo o texto tem dois elementos: as palavras, com o seu significado. E a música... Percebi, então, que todo o texto literário se assemelha à música. Uma sonata de Mozart, por exemplo. A sua “letra” está gravada no papel: as notas. Mas assim, escrita no papel, a sonata não existe como experiência estética. Está morta. É preciso que um intérprete dê vida às notas mortas. Martha Argerich, pianista suprema (a sua interpretação do concerto nº 3 de Rachmaninoff convenceu-me da superioridade das mulheres...) toca-as: os seus dedos deslizam leves, rápidos, vigorosos, vagarosos, suaves, nenhum deslize, nenhum tropeção: estamos possuídos pela beleza. A mesma partitura, as mesmas notas, nas mãos de um pianeiro: o toque é duro, sem leveza, tropeções, hesitações, esbarros, erros: é o horror, o desejo que o fim chegue logo.

Todo o texto literário é uma partitura musical. As palavras são as notas. Se aquele que lê é um artista, se ele domina a técnica, se ele surfa sobre as palavras, se ele está possuído pelo texto — a beleza acontece. E o texto apossa-se do corpo de quem ouve. Mas se aquele que lê não domina a técnica, se ele luta com as palavras, se ele não desliza sobre elas — a leitura não produz prazer: queremos que ela termine logo. Assim, quem ensina a ler, isto é, aquele que lê para que os seus alunos tenham prazer no texto, tem de ser um artista. Só deveria ler aquele que está possuído pelo texto que lê. Por isso eu acho que deveria ser estabelecida nas nossas escolas a prática de “concertos de leitura”. Se há concertos de música erudita, jazz e MPB — por que não concertos de leitura? Ouvindo, os alunos experimentarão os prazeres do ler. E acontecerá com a leitura o mesmo que acontece com a música: depois de ser picado pela sua beleza é impossível esquecer. A leitura é uma droga perigosa: vicia... Se os jovens não gostam de ler, a culpa não é deles. Foram forçados a aprender tantas coisas sobre os textos — gramática, usos da partícula “se”, dígrafos, encontros consonantais, análise sintáctica — que não houve tempo para serem iniciados na única coisa que importa: a beleza musical do texto literário: foi-lhes ensinada a anatomia morta do texto e não a sua erótica viva. Ler é fazer amor com as palavras. E essa transa literária inicia-se antes que as crianças saibam os nomes das letras. Sem saber ler elas já são sensíveis à beleza. A missão do professor? Mestre do Kamasutra da leitura…”
(Ruben Alves, Gaiolas ou Asas, A arte do voo ou a busca da alegria de aprender; Edições Asa, 2003, pp.20-21)

Rubem Alves é escritor, professor, psicanalista, pedagogo que olha a educação sob uma perspectiva que nos toca e comove.

9 de janeiro de 2008

Viriato Soromenho-Marques na ESAF




fotografias de Victor Seco

O que pode oferecer a Filosofia (como “tradição” e “método vivo”) aos habitantes do mundo contemporâneo?

O que pode oferecer a Filosofia à comunidade educativa no Séc. XXI? Que “valores” educativos transversais podem ser suscitados pelo estudo de uma "atitude filosófica" na prática de docentes e discentes?

Duas questões, dois pontos de partida para a problematização do lugar e do papel da Filosofia na sociedade contemporânea e na escola actual; duas problemáticas que serviram de mote para a aliciante conferência proferida pelo Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Viriato Soromenho-Marques, na Segunda-feira, dia 7 de Janeiro, no polivalente da Escola Secundária Alcaides de Faria. Centenas de alunos e outros membros da comunidade educativa escutaram atentamente, durante mais de uma hora, as ideias que o Professor veio partilhar connosco. Falou de Filosofia, de valores, de educação, num registo adequado a um auditório de jovens, mas sem concessões porque marcado pelo rigor da discursividade filosófica. A Filosofia não tem que ser árida, pode e deve ser clara, falando daquilo que é matricial. A atenção das centenas de alunos à vivacidade do orador provou-o. A dimensão questionante, interrogativa, crítica, sempre inconformada face ao preconceito e às ideias feitas, prendeu o interesse de todos quantos escutaram as palavras de V. Soromenho-Marques. Afinal quem poderia ficar indiferente a um discurso onde se falou da automomia do pensar, da responsabilidade pessoal e social, de reciprocidade dialógica na relação “Eu-Tu”, da necessidade de trabalho colaborativo, das lideranças repartidas e do sentido de comunidade, de humildade e do respeito pelo Outro, do pluralismo da condição humana e do grande desafio que se coloca à Humanidade, e que urge deixar de protelar, ou seja: “civilizar a relação dos seres humanos com a Natureza”, como referiu o conferencista, citando Victor Hugo. Quem afinal poderia ficar indiferente a tudo isto? No polivalente da ESAF, a audiência deu mostras de que não ficou indiferente. Por seu lado, o blogue da BE/CRE não quis deixar escapar esta oportunidade de fazer referência ao evento que, promovido pela Área Disciplinar de Filosofia, foi não só a celebração de um espaço de "cuidado" para com a Filosofia, mas também mais um contributo para a afirmação da identidade cultural desta escola, em tempo de celebração dos seus cinquenta anos de existência ao serviço da educação e da cultura, como é seu lema.

3 de janeiro de 2008

Concurso Nacional de Leitura 2008


Se ainda não te inscreveste junto do teu professor de Português ou na Biblioteca da Escola, ainda estás a tempo de o fazer.

Inscreve-te nesta 1ª Fase (a nível de Escola) do Concurso Nacional de Leitura!

Testa a tua leitura de uma ou mais obras indicadas no Regulamento Interno do concurso. Caso superes esta 1ª Fase e sejas um dos seleccionados, passas à 2ª Fase a nível distrital (que este ano decorre na biblioteca pública da nossa cidade) e quiçá chegues à Final Nacional, que terá lugar durante o próximo mês de Maio (com transmissão pela RTP). Cada concorrente que participe na selecção a nível de escola receberá um Diploma de Participação. Por seu turno, os 6 alunos seleccionados, nesta 1ª fase, receberão um livro cada.

Não deixes de participar. Mostra o teu potencial de leitura.

Relembramos as obras seleccionadas na nossa Escola:

7º Ano – “O Cavaleiro da Dinamarca”, de Sophia de Mello Breyner Andresen

8º Ano – “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”, de Jorge Amado

A Lua de Joana”, de Maria Teresa Maia Gonzalez

9º Ano – “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway

O Principezinho”, de Antoine de Saint-Exupéry.

10º Ano, 11º e 12º Anos - “Contos Exemplares”, de Sophia de Mello Breyner Andresen


Consulta os Regulamentos: Nacional aqui e a nível de escola aqui.

14 de dezembro de 2007

"Emozão" - hoje, às 17h00 na BE


Chega ao fim um período que foi longo, intenso; um período a que assistimos, aqui na BESAF, a momentos vibrantes e de participação, buscando a materialização daquilo que entendemos também ser uma Biblioteca Escolar/Centro de Recursos - um espaço de difusão de cultura, um espaço de encontros, um espaço onde se promova o livro, a leitura, o gosto pelo conhecimento, um espaço que induza à curiosidade, à criatividade, afinal àquilo que possa contribuir um pouco para o nosso crescimento pessoal e intelectual. A par daquilo que a uma Biblioteca compete, enquanto tal e enquanto centro de recursos de apoio ao processo educativo, é bom pontuar esse nosso quotidiano com momentos de dinamização, com momentos que agreguem ao processo de ensino-aprendizagem um valor acrescentado, o valor da assunção da cultura como húmus da nossa identidade humana. Foi o que tentamos fazer com a agenda cultural deste 1º período. Que assim continue.

Voltando ao princípio do parágrafo anterior, chega ao fim um período que foi longo (sucedem-se agora as reuniões de avaliação dos nossos alunos e o labor que tudo isso implica); ainda há tempo para uma ida à Biblioteca, neste último dia de aulas do período e... deixem-se "emozionar" (A Razão e a Emoção acabam de mãos dadas).

13 de dezembro de 2007

Prenúncios de Natal na Biblioteca

A tarde e a noite de ontem foram de espírito de Natal, com música, poesia e prosa.
Momentos tocantes (belo, triste, reflexivo, pungente, o conto - de Natal - de Saramago... e tão bem dito); momentos de graça (que doce e maviosa é a poesia de Natal... Sim, tivemos os consagrados mas também um inédito e a propósito, pleno de candura); momentos de desassombrada luz e lucidez em forma de sermão, pela "voz de um peixe"; um ou outro percalço técnico (que raio!... a electricidade nos aparelhos sonoros); uma brisazinha de África (Natal Africano), ao som de instrumentos (feitos por alun
os) em materiais recicláveis... Momentos que valem a pena, sobretudo, como diz o poeta, "se alma não é pequena". E a dos que lá estavam (muitos: alunos, professores, auxiliares de acção educativa, pais) não o é com certeza.
Fica um registo.

fotos V.Seco
Para ver mais é só clicar: aqui.

11 de dezembro de 2007

Concurso Nacional de Leitura 2008





Entre as diversas actividades relacionadas com a promoção da leitura na Escola Secundária Alcaides de Faria, os professores da Área Disciplinar de Português, em parceria com a Biblioteca Escolar, aderiram ao desafio proposto pelo Plano Nacional de Leitura – participação no Concurso Nacional de Leitura.
A Área Disciplinar de Português e a Biblioteca Escolar c
onvidam todos os alunos a participar na 1ª Fase – Prova de selecção a nível de Escola, que se realizará no dia 15 de Janeiro, às 18h, na Biblioteca, na qual serão testadas as seguintes leituras:

7º ano - “O Cavaleiro da Dinamarca”, de Sophia de Mello Breyner Andresen (Editor: Figueirinhas, 56 pp.)

8º ano - “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”, de Jorge Amado (Editor: Dom Quixote, 114 pp.) / “A Lua de Joana”, de Maria Teresa Maia Gonzalez (Editor: Verbo)

9º ano - “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway (Editor: Livros do Brasil, 156 pp.)
/ “O Principezinho”, de Antoine de Saint-Exupéry
(Editor: Edit.Presença, 96 pp.)

10/11/12º anos - “Contos Exemplares”, de Sophia de Mello Breyner Andresen. (Editor: Figueirinhas, 166 pp.)

As inscrições na 1ª Fase do Concurso Nacional de Leitura podem ser feitas junto do professor de Português e/ou na Biblioteca, através do preenchimento de uma Ficha de Inscrição até ao dia 04 de Janeiro de 2008.

Nota: Os alunos seleccionados passarão à 2ª fase - Finais Distritais e (eventualmente) à 3ª fase - Final Nacional.

Informa-te junto do teu professor de Português ou na Biblioteca da Escola. Não deixes de consultar o Regulamento (a nível de escola) da 1ª Fase - aqui; e a o Regulamento Geral, aqui.

PARTICIPA!


6 de dezembro de 2007

A "emozão" ao rubro!

A sessão lúdica e cultural agendada para a noite de ontem (5/12) na Biblioteca, prometia algo diferente e desconcertante. “EMOZÃO”, assim foi designada e publicitada a actividade que aludia a um confronto entre Razão e Emoção, mas deixava a pairar um certo ar de mistério. Pouco antes do início da "soirée", nos corredores de acesso ao espaço da Biblioteca, ouvia-se, em surdina: “que tipo de confronto vai afinal decorrer na Biblioteca, esta noite?” dizia um; “fala-se de um confronto sem tréguas entre Razão e Emoção / Emoção e Razão”, dizia outro mais avisado; e outro ainda, interrogava-se sobre que modo ocorreria tal confronto, ali, entre os livros; ali, na Biblioteca?! Nada como esperar pelas 21h30m.

Chegado o momento: quem dobrou a entrada da biblioteca deparou-se com um cenário nada habitual num espaço destes; no escuro, brilhavam dezenas de pequenas velas, que conferiam à envolvente um toque quase mágico – livros, mobilrio, pessoas, semblantes difusamente iluminados pelas trémulas chamas. Ao centro, entre estantes, quatro velas vermelhas e um livro sobre uma mesa. Num recanto mais ao fundo e pouco iluminado, dois vultos moviam-se entre os livros, preparando algo. Elementos da comunidade educativa iam chegando e ocupando lugares na sala de leitura. Aguardavam expectantes o que iria suceder-se, quando alguém, em passo rápido, avança para a boca da cena, senta-se numa cadeira e, acto contínuo, abre o livro que há pouco repousava, sob a luz das velas, no tampo da mesa. Sucedem-se, com cadência, as palavras que da sua boca emergem. Palavras que enchem o espaço e atingem todos e cada um, palavras de Eugénio de Andrade (“São como um cristal as palavras”); palavras de Mário de Cesariny, palavras que anunciam outras palavras (“entre nós e as palavras há metal fundente, / entre nós e as palavras há hélices que andam…”_in You Are Welcome To Elsinore); palavras que deram o mote às que se seguiriam, as palavras da “Emozão”.

“Comovo-me. / Eu sou a comoção / Contemplo / O sol caído no horizonte, / a estrela que cintila no céu negro, / o campo que se estende...” troou a voz de uma das personagens – a Emoção; “Oh, sim, sim, / tão simples que perdes a importância que poderias ter, que deverias ter!” – ripostou a voz da Razão.

Naquela espécie de palco, à luz das velas, duas figuras
de negro trajadas, caras mascaradas com pensada simetria e voz liberta, fizeram vibrar o ar com sibilante intensidade. As palavras ganharam corpo e materializaram ali o eterno confronto entre duas dimensões da natureza humana: Razão e Emoção. De um lado a Razão; do outro, a Emoção. Eis o confronto que se anunciara.
E assim foi, por largos minutos de sortilégio pareceu
fulgir ali um pouco daquela intensidade dramática que associamos à tragédia grega, numa outra escala é certo (quiçá haja ainda a oportunidade para um Coro!), mas tocante.
Todos os que à biblioteca se dirigiram, assistiram a uma representação vibrante e intensa, assente num texto por vezes dolente e poético, outras cru e frio, quase trágico.
Momentos que cabem por inteiro no espaço de uma bibliot
eca - porque não? A biblioteca como espaço de difusão de saberes, de recursos imprescindíveis ao acto pedagógico, pode ser também espaço difusor de momentos de cultura e animação. Espaço que pode e deve contribuir para a emergência de novas modalidades de acção educativa. Pois, a formação do ser humano não pode ser predicada de integral, se no seu seio não albergar também a dimensão lúdica e artística, porque muito do seu húmus passa por aí. A par das aulas que preenchem o nosso dia a dia, dessa dimensão mais formal de chamar ao conhecimento e às competências, desse labor de todos quantos querem tornar os seus alunos melhores cidadãos, é bom sentir também a refrescante brisa do que a cultura tem para nos dar.

Resta, pela inspirada leitura dos poemas de Eugénio e de Cesariny (prof. José Veiga); pela portentosa interpretação de um texto da sua autoria, também ele desassombrado e intenso, (professoras Marieta Barbosa e Virgínia Rafael) o nosso agradecimento, que não esconde a vontade de ver repetidos momentos como este. (JD em nome da Equipa da Becre).
Finalmente, como resistir a postar algumas fotos da sessão e o texto integral apresentado a público.

JD/07

"EMOZÃO"

texto de: Marieta Barbosa e Virgínia Rafael

(para aceder ao texto, numa outra página, clique aqui)

Emoção:
Comovo-me.
Eu sou a comoção.
Contemplo.
O sol caído no horizonte, a estrela
que cintila no céu negro, o campo
que se estende...
Quieta, muda, observo e comovo-me
com gestos simples.

Razão:
Oh, sim, sim,
tão simples que perdes a
importância que poderias ter, que deverias ter!

Emoção:
Frívola, deixo-me vaguear...
A emoção...
E tu sempre pronta a lembrar o que
está certo. Ai, não te atrevas, não te
atrevas...

Razão:
O quê? Aqui quem dá ordens sou eu!
Nem tentes! Não te atrevas tu!

Emoção:
Queres-me hirta, rigorosa, lúcida,
bem comportada.
Como posso?

Razão:
Podes, claro que podes. Escuta-me, segue o meu exemplo. Eu nunca me envolvo nas coisas do coração. Sabes porquê? Porque não quero sofrer! A vida é demasiado efémera e fugaz para que não a viva com tranquilidade.

Emoção:
Ouve! Eu resido no âmago. No silêncio sombrio.

Razão:
Levanta-te, ouviste? Eu quero que te levantes! A comoção esmaga-te.
Escuta-me! Escuta-me!

Emoção:
Eu sou o riso simples de quem é feliz.
A mão dada a um adolescente
apaixonado.
A pirueta pueril da criança que finta
o amigo.
O rubor do primeiro beijo.
O bater leve e lento de um coração
que se desprende.

Razão:
Ah, sim.

E por isso também és
a decepção, a frustração, a raiva
a ira, a dor, a angústia. Quer
queiras, quer não, és
desassossego permanente.

Emoção:
Sabes lá como eu sou...

Razão:
Sei pois!

Emoção:
Sou a fome daquele corpo vítima do
poder de outros.
Sou a mulher retalhada que se
desdobra na vida.
Sou a mácula deixada no rosto
da criança maltratada.
Sou o homem vertical prestes a
desmoronar-se.
Não podes saber como fazem.
Porque tu não és...

Razão:
Não, realmente não sou, não quero ser
e jamais serei um joguete
nas tuas mãos.

Eu penso e porque penso, logo existo;
E se existo, logo quero, posso e mando!

Emoção:
Eu trago-os dentro de mim.
Eles levam-me sempre com eles.

Quando se recolhem nos seus
quartos o que nasce?

Razão:
Lá vai ela sentir.
Que maçada! Que maçada!

Emoção:
A raiva contida
O amor sofrido,
A palavra magoada,
A luta desistida,
As ilusões vendidas,
A esperança encarcerada,
A nódoa negra…
A nódoa negra que entope a alma.

E choram...E eu choro...

Razão:
Sois todos uns fracos!
Como me envergonham!
Não valem nada!
Não chegam sequer a ser nada.

Emoção:
Curvam-se sobre o ventre e doem as
entranhas
Rasgam-se as entranhas
Odeia-se, ama-se, resiste-se
E o ventre apoderado de dores
Saca do peito o coração
E ventre e coração anestesiam-se
mutuamente...

E homens e mulheres,
Adolescentes e jovens,
Crianças e velhos
Recolhidos no seu quarto
Desprendem-se de ti.

E choram... E choram...
E sentem…E sentem...

Razão:
Sim, sim, mas só enquanto eu permito e me interessa.
Quando me escutam,
seguem-me rigorosa e cegamente.
Cumprem escrupulosamente o que eu quero,
nem que para isso tenham de se anular,
vivendo como mortos vivos, em caixas de matéria
que vai apodrecendo e cheira mal.
A mim nada disso me incomoda. Eu não tenho sentidos.
Jamais poderei vivê-los. Eu sou antes o rigor, o método
a disciplina, o que se deve ser e
não o que se é ou se quer ser. E eu vencerei! Vê como o mundo me segue. Onde está a Tolerância? A Justiça, a Fraternidade, o respeito pela Vida, pela Natureza, pelo Eu que os habita? Não tens outra saída. Eu venço sempre!

Emoção:
Eu sei o que lhes pedes:
Não chores
Não mostres a tua fraqueza,
Não te curves,
Não lances a mão à cintura,
Não praguejes,
Não grites,
Não fales alto,
Não te comprometas,
Não sintas,
Não te comovas.
Ora, não te envolvas.
Mas ofende sem rubor,
Magoa com educação,
Lixa os outros e olha-os de soslaio.

E homens e mulheres,
Adolescentes e jovens,
Crianças e velhos
Vivem em partes de si
Amortalhados
Na aparência podre, suja…
Alguém os convenceu
Que se se comoverem são fracos,
Vulneráveis, frágeis…

Razão:
E não é verdade? Vê como eu impero.
Já ninguém quer ser fraco, vulnerável ou frágil.
Por isso assistimos a um mundo onde já ninguém chora ou ri: o mundo do faz de conta.
O mundo que eu quero que exista; porra!
Eu tenho que ter,
eu tenho que brilhar,
eu tenho que ter sucesso,
nem que para tal te abafe, te esmague, te destrua.

Eu sou a fama,
eu sou o poder,
eu sou tudo a qualquer preço.

Só me falta a glória!

Emoção:
E eu a que assisto?
A gente doente de tão séria
Muros intransponíveis
Carácteres reservados
Frios, agrestes, enlutados, feios,
horrorosos.

E eu comovo-me
Ao ver como estou neles
Pertinho da explosão
E aí até tremo
Meu Deus eles vão perder a cabeça
porque nasceu-lhes nela o coração.

Mas não.
Controlam-se.
Retrincam-se.
Fabricam-se.
Comportam-se.

Razão:
E porquê?
Porque eu sou mais forte. Eu
tenho aliados e o interesse e a
ganância fazem o resto! Eu só
dou um empurrãozinho,
mostro-lhes um filme com um
final feliz e ei-los! Até se
esmagam, se atropelam, se trincam,
se espezinham, se destroem.,.
Sou ou não sou poderosa?

Emoção:
E o ódio espalha-se pelo corpo.
Preparam a fisga para nova
investida.
Depois vão para o quarto
E choram... E choram...

Razão:
E o mundo do faz de conta
continua!...Não tenho eu
razão? Tenho pois!

Emoção:
E eu que vivo neles e por causa deles.
Não me apetece chorar...

Razão:
Pois não, porque eu te espreito a cada momento e até tu serás minha!
Estou prestes a consegui-lo.
Tu serás minha! Camões escutou-te, mas os homens seguiram-me.
Pessoa escutou-se e tu venceste outra vez.
Até com Reis conseguiste o «carpe diem», mas os homens continuam a seguir-me em linha, todos direitinhos ao abismo.

Chegou a tua hora.

Também serás minha!
Eu serei a dona do mundo e dos homens, nem que tenha que te matar para sempre!

Emoção:
Como te enganas!
Quando eles se acobardam..,
Aí, enrolam-se-me os membros e grito-lhes:

Eu sou o tudo e o nada,
A dor e o prazer,
A vida e morte.
Eu sou o teu porto de abrigo,
Teu quarto sombrio e calado.
Eu sou o saco de água pura
Que trazes escondido no teu olhar
À espera que a barragem se deixe soltar.
Eu sou a tua lágrima pressentida,
A tua dor sucumbida,
A tua alegria desbravada,
A tua raiva merecida,
A tua mágoa sofrida,
A tua gargalhada estridente,
O teu amor embalado.
Eu sou o teu pecado e a tua
redenção.

Eu sou A EMOÇÃO!
Eu sou a EMOÇÃO!


Razão:
Ai não, não, larga-me! Não me atinjas!
Eu quero dominar-me
Eu quero vencer!

(A Razão, já prostrada, chora. A emoção contempla-a e abraça-a. Fundem-se numa só e, num grito final, exclamam: Nasceu a EMOZÃO)

Exposição: Direitos e Deveres

Na Biblioteca da Escola Secundária Alcaides de Faria em Barcelos está em curso uma exposição sobre Direitos e Deveres em Sociedade. A iniciativa partiu dos formandos do Curso de Educação e Formação de Adultos de Dupla Certificação em Práticas Administrativas, faz parte do Tema de Vida Direitos e Deveres do Desenho Curricular do curso e foi apoiada pelos formadores das diversas Áreas de Formação.
A exposição encontra-se estruturada em três componentes distintas. Uma de recolha de dados sobre os direitos e deveres em geral, com referência aos direitos e deveres da saúde, do trabalho, dos alunos e professores na escola e a alguns números sobre as violações dos direitos humanos no mundo. Outra de recolha de opiniões sobre a ocorrência e respeito pelos direitos humanos sob a forma de quadro interactivo aberto à colaboração dos visitantes.

Finalmente uma terceira dedicada à Língua Estrangeira – Inglês com a composição de uma árvore desenhada em papel branco, com dimensões aproximadas de 2,5mx0,8m, onde estão identificadas as raízes e as folhas que o grupo de formandos considerou, em memória descritiva, como os mais significativos direitos humanos.

Este trabalho foi desenvolvido pelos formandos António Ribeiro, Francisco Brito, Hugo Carreira e Maria Paula Simões (a Vera Ferreira encontra-se a recuperar de uma intervenção cirúrgica).
Como introdução à exposição foi projectado, na sala da Biblioteca, o filme “A Vedação” sobre direitos humanos na Austrália. Paralelamente foi desenvolvida a criação de páginas na Internet sobre a exposição.
Os cursos EFA caracterizam-se pela adopção da Metodologia de Projecto na realização de Actividades Integradoras que contribuirão para a demonstração de competências de acordo com um referencial de dificuldade crescente.
No final de cada Tema de Vida, que poderá ser constituído por uma ou mais actividades integradoras, os alunos serão avaliados pela demonstração de competências entretanto detectada ao longo do processo.
O papel principal cabe aos formandos mas, os formadores orientam, ajudam e abrem caminhos para uma verdadeira formação ao longo da vida. Neste momento, a equipa de formadores é constituída pelos seguintes elementos: Celeste Dias, Conceição Duarte, Fátima Loureiro, José Carlos Campos, Teresa Marques e Victor Seco.

É um sistema novo e desinstalador de posicionamentos face aos processos de ensino-aprendizagem mais utilizados. No entanto, é motivador tanto para formandos como para formadores e tem vindo a afirmar-se como elemento dinamizador da vida escolar no período nocturno. por Victor Seco

3 de dezembro de 2007

Podem as páginas de um livro...

Este texto testemunha o encontro entre uma mulher desencontrada de si mesma e o retrato do seu próprio eu, ocorrido aquando duma visita à Biblioteca da Escola Secundária Alcaides de Faria.

Naquele dia viera mais cedo.
Um sentimento de angústia crua e amarga inibia-lhe o sorriso. Olhava os outros como a turba que a comprimia até às entranhas. Enjoada das realidades doentias e abomináveis, escrevera nessa mesma madrugada um belo hino à beleza e à juventude que se lhe vinham esquivando, cada vez mais freneticamente.
Chegou, abriu melancolicamente a porta; olhou sem nada ver e como que instintivamente, abeirou-se de uma cadeira; puxou-a para si e abandonou-se a ela.
Incapaz de uma pronta resposta à mágoa avassaladora e madrasta que lhe batia de uma forma cadenciada no mais profundo do eu, aquela mulher de olhar vivo e conturbado, como inquisidora implacável a mando do espírito, rebusca e rebusca e volta a rebuscar o motivo de tal estado de alma, sem contudo o encontrar.
Numa atitude de justificar a utilidade do momento, olhou vagamente em redor, acabando por se deter numa parede, onde, exposto, estava um trabalho executado com originalidade e poder criativo: o livro “O retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde, aberto nas páginas 34 e 35, aprisionado por arames que se entrecruzavam
despertara-lhe a curiosidade. Levantou-se, e já cara a cara, o livro sorriu. Incrédula, olhou-o de novo, de novo sorriu.
Estaria louca?
Tentando decifrar a intenção do criador, contemplou, reflectiu e leu:
Tenho ciúmes de tudo em que a beleza não morre. Tenho ciúmes do meu retrato que você pintou. Por que há-de ele conservar o que tenho eu de perder? Cada momento que passa rouba-me algo, e dá-o a ele. Ah, se acontecesse ao contrário! Se o retrato pudesse mudar e pudesse eu ser sempre como sou agora!”
Sentindo a força e o poder daquelas palavras, agora despidas, invadindo, sugando-lhe o ser… também os olhos (os seus) como os de Dorian Gray, “se arrasavam de lágrimas escaldantes”…
Encontrara inesperada e finalmente a razão de tanta angústia, tanta mágoa, tanta dúvida, tanta tristeza inexplicável!
Tudo era agora tão claro! ...

por Méssá

Uma nota de rodapé:
São sempre bem vindos estes exercícios de escrita, estes "desvendares" de estados de alma, estes olhares sobre o que nos cerca e dos reflexos que daí emanam... mostram que este espaço pode ser um espaço de interacção. Um espaço vivo.
Obrigado Méssá, cá esperamos mais textos teus.

1 de dezembro de 2007

Sessão (experimental) de poesia















































































JD/07


O
mote para a iniciativa tinha como referência uma aproximação poética ao "espírito científico", numa semana em que se assinalava a cultura científica (o Dia Nacional da Cultura Científica foi a 24 de Novembro). Para tal, nada como recorrer a um poeta que nunca abdicou da vivência científica, mas que a par da divulgação, da investigação e da pedagogia, soube também temperar a fórmula poética - António Gedeão ( pseudónimo ou, se quiserem, alter-ego de Rómulo de Carvalho, homem da ciência e das letras, para quem ciência e poesia sempre andaram de mãos dadas). Numa sessão singela mas envolvente (no passado dia 29.Nov.), um grupo de alunos (11ºU) - os ONZU´s - o prof. José Veiga, com a colaboração da equipa BE/CRE, apresentaram três criações pticas do autor, "Poema para Galileo", "Lágrima de Preta" e "Pedra Filosofal".
A sessão iniciou-se com a leitura performática de "Poema para Galileo" (sim, um dos precursores da Ciência Moderna, experimental e rigorosa); relembrando a dignidade do homem que teve que enfrentar em julgamento, nos meados do Séc. XVII, as "eminências graves do Santo Ofício".
Relembrado Galileu, um salto para a química da lágrima, no fundo a química do sentimento, com a leitura encenada do poema "Lágrima de Preta", e a constatação, afinal, de apenas água e cloreto de sódio, "nem sinais de negro, nem vestígios de ódio". Sentimento puro.Seguiu-se "Pedra Filosofal", cantada em grupo e ao som da guitarra. Repetiu-se a experiência, num "encore" que pareceu agradar a todos quantos se deslocaram à Biblioteca na noite fria. Houve ainda tempo, enquanto se arrumavam adereços, mesas e cadeiras, para um diálogo sui generis entre um banjolim e uma guitarra - o som de fundo perfeito para um bom fim de noite na escola.